ATA DA DÉCIMA QUINTA SESSÃO SOLENE DA PRIMEIRA SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA DÉCIMA LEGISLATURA, EM 23.05.1989.
Aos vinte e
três dias do mês de maio do ano de mil novecentos e oitenta e nove reuniu-se,
na Sala de Sessões do Palácio Aloísio Filho, a Câmara Municipal de Porto
Alegre, em sua Décima Quinta Sessão Solene da Primeira Sessão Legislativa
Ordinária da Décima Legislatura, destinada à entrega do Título Honorífico de
Cidadão Emérito ao Sr. Arno Armindo Matte, concedido através do Projeto de
Resolução nº 55/88 (proc. 2280/88). Às dezessete horas e vinte e um minutos,
constatada a existência de “quorum”, o Sr. Presidente declarou abertos os
trabalhos e convidou os Líderes de Bancada a conduzirem ao Plenário as
autoridades e personalidades presentes. Compuseram a Mesa: Ver. Isaac Ainhorn,
primeiro Vice-Presidente da Câmara Municipal; Ver. Antonio Losada,
representando o Sr. Prefeito Municipal de Porto Alegre; Sr. Arno Armindo Matte,
Homenageado; ex-Vereador Mano José, autor da proposição desta homenagem;
Professora Antonieta Barone, representando a Aliança Francesa e o Instituto
Cultural Brasileiro Norte-Americano; Engenheiro Sérgio da Costa Matte, filho do
Homenageado; e Ver. Mano José, Secretário “ad hoc”. A seguir, o Sr. Presidente
concedeu a palavra aos Vereadores que falariam em nome da Casa. O Ver. Airto
Ferronato, em nome da Bancada do PMDB, cumprimentou o ex-Vereador Mano José
pela oportunidade em homenagear o Sr. Arno Armindo Matte. Fez breve relato das
atividades do músico gaúcho, salientando ser esta homenagem um ato de gratidão,
merecido, da Câmara Municipal de Porto Alegre e da própria cidade ao decano
flautista. O Ver. Mano José, em nome das Bancadas do PDS, PDT, PT e PL,
ressaltou as qualidades do Homenageado, discorreu sobre as atividades artísticas
do flautista e, conceituando música, salientou os serviços prestados à
comunidade porto-alegrense e ao Estado gaúcho pelo Sr. Arno Armindo Matte.
Reconheceu, ainda, a feliz oportunidade do pai de S. Exa., ex-Vereador Mano
José, ao apresentar proposição que homenageia tal personalidade. A seguir, o
Sr. Presidente registrou o recebimento de telegramas referentes à homenagem, de
congratulações, do Sr. Pedro Simon, Governador do Estado, do Sr. Reitor da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, do Presidente da EPATUR, e do Padre
Paulo Paul, da cidade de Dom Pedrito. Em continuidade, o Sr. Presidente
convidou os presentes a, de pé, assistirem a entrega, pelo ex-Vereador Mano
José, do Título Honorífico de Cidadão Emérito ao Sr. Arno Armindo Matte, e concedeu
a palavra ao Engº Sérgio da Costa Matte, filho do Homenageado, que, em nome de
seu pai, agradeceu o título recebido e falou da emoção da família e dos amigos
do Homenageado diante do reconhecimento e da homenagem ao músico gaúcho. Após,
o Sr. Presidente fez pronunciamento alusivo à solenidade, convidou as
autoridades e personalidades presentes a passarem ao Salão Nobre da Casa e,
nada mais havendo a tratar, levantou os trabalhos às dezessete horas e quarenta
e sete minutos, convocando os Senhores Vereadores para a Sessão Ordinária de
amanhã, à hora regimental. Os trabalhos foram presididos pelo Ver. Isaac
Ainhorn e secretariados pelo Ver. Mano José, como secretário “ad hoc”. Do que
eu, Mano José, Secretário “ad hoc”, determinei fosse lavrada a presente Ata
que, após lida e aprovada, será assinada pelos Senhores Presidente e 1º
Secretário.
O SR. PRESIDENTE: Em nome da Casa falarão os
Vereadores Airto Ferronato e Mano José.
Com a palavra, o Ver. Airto Ferronato, que falará em nome da sua
Bancada, o PMDB.
O SR. AIRTO FERRONATO: Sr. Presidente, Srs.
Vereadores, vivemos neste instante um momento de gratidão, com vistas a
homenagear esta grande figura humana que dedica sua existência à música.
Vejo a Casa repleta de amigos e que bem demonstra a sua grandiosidade,
a qual reconheceu o seu trabalho e engrandece este evento. Falo em nome de meu
Partido o PMDB, desta Casa, cumprimentando inicialmente o requerente, Vereador
Mano José, pela iniciativa, e também esta Casa, que hoje concede o título de
Cidadão Emérito de Porto Alegre ao grane músico gaúcho Sr. Arno Armindo Matte.
Quero saudar nosso homenageado, desejando-lhe muitas felicidades em sua
luta, para ver seus pleitos alcançados. Arno Armindo Matte, Cidadão Emérito,
esta simples homenagem é a gratidão da Câmara de Vereadores de Porto Alegre e
da população de nossa Capital, pelo trabalho que vossa senhoria prestou e vem
prestando a esta Cidade e a seu povo, quer como músico quer como cidadão.
Este decano dos flautistas gaúchos, Arno Armindo Matte, é, provavelmente,
o mais antigo do País, ainda em atividade. Nascido em Lageado em 16 de setembro
de 1904, começou sua trajetória artística no interior do Rio Grande do Sul,
tocando em orquestras do “cinema mudo” na década de 1920; atuou na Banda
Municipal de Porto Alegre, participou do conjunto da Rádio Farroupilha e
orquestra da Rádio Difusora, participou como Diretor do Departamento Artístico
e Cultural da Sociedade Rio Branco, de Cachoeira do Sul, onde fundou e dirigiu,
uma orquestra sinfônica e uma orquestra mista. Teve participações na Orquestra
Sinfônica de Porto Alegre, na Orquestra Juvenil, na Orquestra Pró-Música e no
Quinteto de Sopro de Porto Alegre.
Sr. Arno Armindo Matte, a Cidade sente-se orgulhosa de ter entre seus
filhos, tão laborioso servo da música que, através de sua flauta e
sensibilidade artística, contribuiu e contribui significativamente no
desenvolvimento cultural de nossa gente.
Por suas realizações na área da música, seus enriquecidos esforços pela
cultura, antes de mais nada, é um ato do coração, é um ato de bravura das
grandes personalidades que merecem o nosso apoio e o nosso carinho, porque
trata-se de uma grande lição de vida e de amor. Obrigado. Nossos parabéns, Sr.
Arno Armindo Matte. (Palmas.)
(Não revisto pelo orador.)
O SR. PRESIDENTE: Com a palavra, o Ver. Mano
José, que falará pelas Bancadas do PDS, PDT, PT e PL.
O SR. MANO JOSÉ: Senhores e Senhoras, o nosso
homenageado, senhor Arno Armindo Matte é um músico. Permita-me professor Arno
Matte, o músico erudito, o ilustre homenageado, a ousadia de uma pequena e
modesta fala sobre o que penso sejam a música e seus tutores, os músicos.
Creio, Senhores, que a música é a mais profunda expressão da alma. E, por isso divina. A música é tão antiga quanto o homem... E o tem acompanhado em todos os momentos do seu viver. No berço - com as canções de ninar - no casamento, nas alegrias, nas tristezas, nos hinos de glória, nas orações e rituais sagrados, e, até mesmo na morte, a música está sempre presente... traduzindo o sentimento mais puro, a emoção de cada momento, numa linguagem universal. Acima das barreiras religiosas, idiomáticas e político-ideológicas que separam a humanidade.
Não fosse isso verdade, acho que nos seria impossível entender e muito
menos apreciar Chopin, Beethoven ... ou Mozart ... e tantos outros, enfim ...
Da mesma forma, seria impossível a um polonês, ... ou a um austríaco,
por exemplo, deliciar-se com Villa Lobos, ... Carlos Gomes ...
Música, para mim, é sensibilidade, é arte e ciência, reunidas.
Agora, senhores, pergunto: ... O que é o músico?
Penso no músico como se o mesmo fosse um artesão, que tem o dom, que
tem a sensibilidade - imprescindíveis - de modelar o ar, através dos
instrumentos, ... E transformá-lo em sons sublimes, em obra de arte, ... Em
música.
Do ar assim manipulado e modelado pelo espírito do músico, são criados
os acordes das sinfonias, das óperas e das canções...
Os verdadeiros músicos, ... os grandes músicos, ... são inspirados por
Deus, para auxiliarem a humanidade na sua dura jornada pela vida. Fazendo com
que o povo consiga sobreviver às grandes crises sociais e psicológicas a que
está constantemente submetido.
E para render uma justa homenagem a um destes homens, que estamos aqui,
hoje, reunidos. Arno Armindo Matte é músico. Aliás é “o músico”, agraciado,
merecidamente, com o título honorífico de Cidadão Emérito, pela Câmara
Municipal de Porto Alegre.
Meu pai, o ex-Vereador Mano José, do qual muito me orgulho de ser
discípulo, foi duplamente feliz na escolha do homenageado:
Trata-se de uma pessoa digna, honrada e humanista, com a profissão
maravilhosa de músico.
Aproveito para congratular-me com meu pai, Vereador Mano José, e com os
nobres membros desta Casa, pela justa decisão desta homenagem.
Pois bem. Já lhes falei da música e da tarefa dos músicos...
Tenho a certeza de que todos os amigos e amigas de Arno Matte, aqui
presentes, são testemunhas de que este homem dedicou toda a sua vida à
música,... E cumpriu com louvor a sua tarefa.
Convido-os a relembrar, rapidamente, a trajetória e o trabalho glorioso
desta personalidade e sua inestimável contribuição para a música e a cultura do
povo rio-grandense.
Aos sete anos de idade Arno Matte iniciou seus estudos de flauta com o
Maestro Miguelino Silveira, concluindo-os, anos depois, com o professor Andrade
Neves, já na capital. Daí em diante, não parou mais.
Sempre crescendo, tocou em orquestras do “cinema mudo”, na década de
1920. Passou pela Banda Municipal de Porto Alegre, entre 1931 e 1939 e, depois,
orquestras sinfônicas. Participou de concertos sinfônicos sob a regência de
grandes maestros, no nível, por exemplo, de Camargo Guarnieri e Francisco
Mignone.
Fundou, em 1945, a Orquestra Sinfônica de Cachoeira do Sul. Foi
flautista da “OSPA” de 1971 a 1981.
Enfim, é impossível discorrer sobre toda a obra de Arno Matte em tão
pouco tempo, afinal, são quase 80 anos dedicados integralmente à música, numa
faina incansável.
Podemos afirmar, entretanto, sem medo de exagerar, que este homem
transformou-se num “virtuose” e, foi por isso que lhe pedi permissão no início
do meu discurso, para me atrever a falar sobre música. Afinal, ele é um mestre
... É um daqueles seres especiais de que já falei, ... capaz de sentir, criar e
transmitir mensagens musicais, de amor e esperança, ao coração das pessoas, que
hoje são tão carentes.
Arno Armindo Matte é, sem dúvida, o decano dos flautistas gaúchos e,
provavelmente, o mais antigo do País em plena atividade.
Para finalizar, quero transmitir, em nome de todos, um abraço carinhoso
ao senhor Arno Armindo Matte, bem como os agradecimentos e aplausos pelo
brilhante trabalho que realizou, juntamente com o nosso sincero reconhecimento
a este Cidadão Emérito.
Senhor Arno Armindo Matte: Que Deus o abençoe e que não venha a privar,
nós seres terrestres, tão cedo do seu dom, do seu talento e do som maravilhoso
da sua flauta mágica que sabe tão bem alentar e encantar a todos nós; chegando
até mesmo a elevar nosso espírito, a tal ponto que faz com que, muitas vezes,
venhamos a entrar em transe, levando-nos a uma aproximação com o ser supremo
... sem dúvida alguma, o nosso Criador, Sr. Arno Armindo Matte, que o fez, este
ser tão perfeito e maravilhoso, que o senhor é.
Por tudo isso, mais uma vez obrigado meu Deus, muito obrigado Senhor
Arno Armindo Matte!
O SR. PRESIDENTE: Depois desse comovente
discurso do Ver. Mano José, tenho a honra de solicitar ao ex-Vereador e sempre
Vereador Mano José, pai, que faça a entrega do título ao nosso homenageado.
Convido a todos para que, de pé, assistam a entrega do título.
(O ex-Vereador Mano José procede à entrega do título.)
O SR. PRESIDENTE: Hoje estamos tendo uma
Sessão um pouco diferente, posto que o ex-Vereador Mano José foi o proponente
da homenagem e seu filho, hoje Vereador, fez o discurso. Neste momento, convido
o Sr. Sérgio Matte, filho do nosso homenageado para que, em nome da família e
do seu pai, faça os agradecimentos.
O SR. SÉRGIO MATTE: Senhores e Senhoras, a vossa
fidalguia, a vossa bondade de coração ao conceder a Arno Matte o título de
Cidadão Emérito pelos seus feitos musicais e pelos seus feitos de cidadão que
nós, seus filhos, somos testemunhas oculares, atinge a toda família, atinge a
todos amigos e faz de todos nós eternos agradecidos pelo reconhecimento de uma
vida voltada para as coisas do espírito e a homenagem reacende mais uma vez a
chama de que ainda prevalecem sobre as coisas materializadas do mundo moderno a
chama maior do espírito, o sopro superior de Deus. Se continuasse não
encontraria, podendo sossobrar ante a dificuldade da emoção e por certo não
encontraria em qualquer enciclopédia da nossa última flor do lácio a palavra
adequada para agradecer do fundo do coração dele e de todos nós, que somos,
também como ele, e queremos transmitir aos nossos pósteros esse exemplo. E o
exemplo daqueles que prestam uma homenagem desta envergadura a um cidadão que
fez por se dedicar à sua terra, ao seu torrão, ao seu País.
Por isso, acho que busco na singeleza da palavra comum, sem dúvida, mas
a mais legítima expressão do nosso profundo reconhecimento.
Muito obrigado à Câmara Municipal de Porto Alegre. Muito obrigado meus
caros Mano José, pai, e Mano José Filho. Muito obrigado. (Palmas.)
(Não revisto pelo orador.)
O SR. PRESIDENTE: Antes de encerrar a presente
Sessão, esta Casa não poderia deixar, igualmente, de se manifestar e explicar o
sentido da outorga deste título.
Entendemos que há pessoas singulares, que por aquilo que fizeram, por
tudo aquilo que realizaram merecem o reconhecimento da sua Cidade. As pessoas,
os seres humanos vivem, fundamentalmente, do Universo da Cidade. O Estado é o
que seria uma abstração. A cidade é o lugar onde se desenrolam as grandes
alegrias. As dificuldades, as tristezas, as vitórias se desenrolam no contexto
das cidades.
E a cidade de Porto Alegre neste momento presta uma reconhecida e justa
homenagem a Arno Armindo Matte que nesta oportunidade recebe o título de
Cidadão Emérito de Porto Alegre, o reconhecimento da sua Cidade.
E hoje, quando as dificuldades de toda a ordem transformaram a Cidade,
e a nossa Cidade, local de cenas tristes, de acidentes, de violência urbana,
dificuldades de toda ordem.
Uma homenagem como esta, em que se reverencia a Armindo Matte, a sua música, ao reconhecimento de todas estas pessoas que hoje se expressam na figura do nosso homenageado, eis o que nós pretendemos. Nós nos lembramos ainda de coisas que Porto Alegre já perdeu, e quem sabe muitas delas nós tenhamos que reconquistar através da música, do Araújo Viana, da Velha Praça da Matriz e de tantos outros lugares que hoje estão recuperados como o Araújo Viana. O Araújo da minha infância, onde ia acompanhado, do meu pai, ouvir a nossa Orquestra Sinfônica. E hoje quem sabe é o momento de retomar esses espaços, como a Cidade retomou o Teatro São Pedro e tantos outros espaços culturais que ainda pretende retomar. E a música canta e louva tudo isso.
Por todas essas razões, o discurso do Ver. Mano José, juntamente com as manifestações do Ver. Airto Ferronato, falaram o sentimento desta Casa nesta justa e merecida homenagem. Nos sentimos reconfortados e resgatamos um compromisso que a Cidade tem com Arno Armindo Matte, por tudo que ele fez por nossa Cidade, por nosso Rio Grande. Muito obrigado.
Estão encerrados os trabalhos.
(Levanta-se a Sessão às 17h47min.)
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